O Brasil pode colher todo o trigo que consome?
O país é uma potência agrícola, mas depende de trigo importado. Nosso estudo investiga quanto o Cerrado pode contribuir — e o que muda quando entram na conta a água, o clima e os preços.
Um cultivo concentrado no Sul. Uma possibilidade de expansão no Cerrado.
Mapa original TEMPO · área plantada, PAM/IBGE 2021 · malha municipal 2024.
Importações anuais médias de trigo entre 2013 e 2023.
Expandir o cultivo em áreas já agropecuárias, considerando água, manejo e viabilidade econômica.
O desafio envolve a estabilidade da oferta ao longo dos anos, além do volume colhido em uma safra.
Uma boa safra aproxima.
A média revela o desafio.
Entre 2013 e 2023, o Brasil produziu, em média, 6,6 milhões de toneladas de trigo por ano, para um consumo de 11,1 milhões. O estudo informa importações anuais médias de 4,5 milhões de toneladas.
Em 2022, a produção chegou a 10,5 milhões de toneladas, diante de uma demanda de 11,5 milhões. A distância foi menor, mas esse resultado não elimina a exposição à variação do clima e dos preços nos anos seguintes.
O tamanho da diferença
Médias anuais · 2013–2023
de importações por ano, em média
Importações médias anuais informadas no artigo. Valores históricos, não uma estimativa para a safra atual.
Gráfico TEMPO com valores informados em Nóia Júnior et al. (2024). Mt = milhões de toneladas.
O trigo encontra dois ambientes muito diferentes.
A produção brasileira está fortemente concentrada no Sul. No Cerrado, a elevada radiação e as temperaturas de inverno favorecem o potencial produtivo, mas a estação seca muda as exigências de água e o calendário de cultivo.
A comparação entre Cristalina, em Goiás, e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, mostra por que o mesmo pacote de manejo não descreve as duas regiões. No Cerrado, adiar a semeadura pode reduzir a exposição à brusone, mas também deslocar fases sensíveis para meses mais secos.
A água muda a área necessária.
Ao combinar demanda, clima e resposta da produção sulista ao preço do trigo, o estudo estimou a área adicional necessária no Cerrado. No cenário de preço médio, pelo menos 0,5 milhão de hectares irrigados poderiam atender a demanda até 2035. Em sequeiro, seriam necessários mais de 2 milhões de hectares.
Essa diferença depende das produtividades assumidas: 9,0 t/ha no sistema irrigado e 2,6 t/ha no sequeiro. São premissas do exercício, não uma produtividade garantida para qualquer propriedade.
Área adicional de trigo irrigado no Cerrado para atender a demanda até 2035, no cenário de preço médio do estudo.
Cada quadrado representa 0,5 milhão de hectares.
Mais de dois milhões de hectares adicionais se a expansão ocorrer sem irrigação, sob as mesmas premissas de preço.
Quatro quadrados completos e uma extensão aberta.
Autossuficiência exige mais que hectares.
A interpretação da TEMPO é que a expansão precisa ser avaliada junto com o risco de produção e a capacidade de sustentar o investimento.
- Para a produção: combinar época de semeadura, disponibilidade de água, cultivares e risco de doenças.
- Para crédito e investimento: testar o projeto com diferentes preços, custos de irrigação e produtividades.
- Para políticas públicas: priorizar áreas já agropecuárias e pastagens degradadas, com prevenção do desmatamento.
O estudo oferece cenários para essa discussão. A viabilidade hídrica, ambiental e econômica precisa ser verificada em cada região.
Da pesquisa
para esta análise.
Nóia Júnior et al. (2024). Achieving wheat self-sufficiency in Brazil. Environmental Research Letters 19, 031003. DOI 10.1088/1748-9326/ad26b8. CC BY 4.0.
Texto e gráficos editoriais TEMPO: síntese em português dos resultados publicados. O mapa de entrada foi produzido novamente pela TEMPO a partir da PAM/IBGE, tabela 5457, variável 8331, área plantada de trigo em 2021; não foi extraído da figura do artigo. Consultar dados do mapa ↗.
Premissas e limites
As médias e projeções permanecem nos períodos e cenários do artigo de 2024. As curvas originais não foram recalculadas nem atualizadas. A projeção considera demografia, consumo, preço e impacto climático no Sul; assume produtividades fixas para os sistemas de trigo no Cerrado. Os dados brutos da projeção são disponibilizados pelos autores mediante solicitação, segundo o artigo.
